A empresa que ganha

Quando você compra ações

Fonte: Shutterstock

Você sabia que a Bolsa de Valores brasileira é uma empresa? E que você pode investir nela?

Pois bem, hoje apresento a você a nossa Bolsa de Valores, a B3 (B3SA3).

A B3 (Brasil, Bolsa, Balcão) é resultante da combinação entre BM&F e a Bovespa criando a BM&FBOVESPA S.A. – Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros (“BM&FBOVESPA”) – em 2008 e a Cetip S.A. – Mercados Organizados (“Cetip”) – em 2017.

Dessa combinação, foi criada uma das maiores empresas de infraestrutura de mercado financeiro do mundo, a qual administra – em ambiente de Bolsa e de balcão – sistemas de negociação, compensação, liquidação e registro para todas as principais classes de ativos, desde ações e títulos de renda fixa privada até derivativos de moedas, taxas de juros, commodities e operações estruturadas.

A empresa oferece também serviços de central depositária e de sistemas de controle de risco até o beneficiário final e atua como contraparte central para as operações realizadas em seus mercados. Além disso, presta serviços de entrega eletrônica das informações necessárias para o registro de contratos de financiamento aos órgãos de trânsito e faz a gestão centralizada de banco de dados de gravames.

Linhas de negócio

A B3, por ser resultante de uma série de fusões e aquisições, possui várias linhas de negócio. Vou descrever aqui as quatro principais atividades:

1. Listado: este segmento contempla o mercado de ações e instrumentos de renda variável. Dentro dele, podemos ter as seguintes subdivisões:

2. Balcão: este segmento engloba as atividades que envolvem o mercado de renda fixa, com as seguintes subdivisões:

3. Infraestrutura para financiamento: a B3 oferece e gerencia um sistema eletrônico integrado para inserção, pelos agentes financeiros, de restrições financeiras relacionadas a operações de financiamentos de veículos e a custódia dessas informações. Também presta serviços de disponibilização eletrônica das informações de contratos de financiamento em nome das instituições credoras para órgãos de trânsito, ou empresas credenciadas por estes, para que seja feito o registro de contratos e anotações de gravames pelos órgãos de trânsito.

4. Tecnologia, dados e serviços: o último segmento pode ser subdividido em três:


Agora que você já entende todos os serviços que a B3 proporciona, vamos analisar qual é a composição societária da empresa:

Fonte: B3

A B3 é listada no segmento de listagem Novo Mercado, mais alto grau de governança corporativa. Nesse segmento, uma empresa só possui ações ON, ou seja, ações ordinárias, que dão direito a voto nas assembleias de acionistas.

A companhia não possui um acionista ou um grupo de acionistas controladores diretos e/ou indiretos, possuindo um capital pulverizado (“corporation”) e cerca de 86% de ações em circulação no mercado (free float).

Quem são os concorrentes?

A B3 é um monopólio no mercado de capitais brasileiro. Entretanto, as Bolsas mundiais são suas maiores concorrentes para a listagem de novas empresas brasileiras (IPO, sigla em inglês para Initial Public Offering).

Os exemplos de listagem nos EUA de empresas nacionais foram a Stone (empresa de adquirência), PagSeguro (empresa de adquirência), XP Inc. (empresa de serviços financeiros), dentre outras.

Há alguns anos, existem planos de entrada de uma nova Bolsa no mercado doméstico. A ATS Brasil, empresa controlada pela Americas Trading Group (ATG), fundada em 2010, é a candidata à nova Bolsa. O plano da companhia é criar um ambiente semelhante ao de uma Bolsa eletrônica, como a americana Nasdaq, em que os investidores possam negociar ações e outros ativos em uma plataforma digital.

A ATG criou e opera uma rede de telecomunicações e de dados que está conectada às principais Bolsas do mundo. O negócio da empresa é oferecer essa plataforma às corretoras e administradores de recursos, que usam essa rede de comunicação para conectar seus clientes, através de uma única porta de entrada, aos mercados local e estrangeiros.

Como já tem uma rede de infraestrutura e o acesso às corretoras, a ATG decidiu criar sua própria Bolsa para que as corretoras possam fechar negócios fora do ambiente da Bolsa principal. Mas, para realizar essas transações diretamente, a nova Bolsa precisa ter acesso a alguns sistemas e dados que hoje pertencem à B3.

Nesse ponto, as negociações entre a ATS Brasil e a B3 ficaram emperradas durante os últimos anos, desde 2017 – e a situação foi parar no Cade. A candidata à nova Bolsa alegava que a B3 cobrou um preço elevado para o acesso aos sistemas, o que inviabilizaria o negócio. O impasse teve desfecho apenas no fim de 2019, com a definição do valor a ser cobrado pela B3 pela Tarifa de Transferência de Ativos (TTA).

Perspectivas para a B3

Após o momento mais agudo da crise provocada pela pandemia da Covid-19, o mercado financeiro brasileiro passou por um momento inédito que combinou alta volatilidade gerada pelas incertezas que acompanham a crise atual a um cenário de taxas de juros em patamares historicamente baixos.

Essa dinâmica teve como efeito uma busca por parte dos investidores, principalmente os locais, por diversificação de seus portfólios além de títulos públicos, evidenciada pelo crescimento dos volumes negociados nos principais mercados de atuação da B3, a qual atingiu o patamar de 3 milhões de CPFs cadastrados em setembro de 2020. 

Fonte: B3

A melhora dessa demanda encorajou empresas a retomarem seus planos de captação de recursos, tanto no mercado de dívida quanto no de ações, no qual vimos que a quantidade de IPOs e follow-ons voltou a crescer.

Além disso, a CVM anunciou recentemente as mudanças nas regras relacionadas aos BDRs (Brazilian Depositay Receipts), que flexibilizou a negociação para o varejo. Isso acaba por desenvolver e melhorar a liquidez dos mercados, beneficiando a B3.

Falando de tecnologia, a empresa conseguiu mostrar sua resiliência operacional ao suportar o aumento brusco de volume de negociação e a capacidade de processamento de dados em março, no auge da crise da Covid-19. Com o aumento de indivíduos operando, o volume negociado mudou de patamar de negociação, e a empresa estava preparada para encarar essa mudança.

Vamos aos números: resultados do 4T20

Destaques: (i) crescimento forte e sólido da receita em praticamente todas as linhas de negócio; (ii) recorde de volume médio diário (ADTV) no mercado de ações e de futuros; (iii) entrega de mais de 80 novos produtos e serviços; e (iv) nova política de tarifas para o mercado de renda variável que entrou em vigor no último mês de fevereiro.

Fontes: B3 e Spiti

A receita líquida da B3 foi de R$ 2,537 bilhões, alta de 44,3% em relação ao 4T19, com crescimento das receitas em todos os segmentos, exceto “Balcão”. No segmento de “Listados”, podemos destacar o crescimento do volume negociado nos mercados de ações e de futuros, enquanto no de “Juros, moedas e mercadorias”, o crescimento dos contratos de juros e de câmbio, além da apreciação do dólar, que tem efeito positivo na receita por contrato (RPC).

Já no segmento “Infraestrutura para financiamento”, o aumento pode ser explicado pelo crescimento na quantidade de veículos financiados, pela correção anual dos preços pela inflação (IGP-M) e pelo crescimento da receita do Portal de Documentos e da plataforma imobiliária. E o segmento de “Tecnologia, dados e serviços” também foi impulsionado pelo aumento da base de clientes, pelas mudanças de tarifas de balcão, pela apreciação do dólar e pelo aumento do volume negociado de BDRs.

Como dito anteriormente, o segmento de “Balcão” apresentou queda em função da nova política de precificação, no qual parte das tarifas de serviços ligados aos volumes de balcão passou a ser cobrada de forma fixa no pacote de utilização mensal, migrando parte da receita do segmento para o de “Tecnologia e acesso”.

No 4T20 foram realizados investimentos de R$ 177,2 milhões, principalmente em atualizações tecnológicas para todos os segmentos da B3, desenvolvimento de novos produtos e projeto da nova estrutura predial (engenharia, mobiliário e tecnologia). Em 2020, os investimentos realizados pela companhia somaram R$ 423 milhões.

O resultado financeiro totalizou R$ 63,5 milhões no 4T20. As receitas financeiras atingiram R$ 69,4 milhões, queda de 48,3%, explicada principalmente pela queda da taxa de juros no período. Já a redução de 41,5% nas despesas financeiras da B3, que somaram R$ 68,1 milhões, é explicada, principalmente, pela redução de juros pagos no trimestre em função do vencimento do bond no 3T20.

Além disso, é importante notar que o resultado financeiro também foi impactado pela variação cambial sobre empréstimos em moeda estrangeira e sobre o investimento no exterior que a companhia possui, que totalizou R$ 62,2 milhões no trimestre analisado.

Fontes: B3 e Spiti

O lucro líquido recorrente reportado da B3 foi de R$ 1,160 bilhão, 34,1% maior quando comparado ao 4T19. A principal diferença entre lucro líquido reportado e o recorrente está ligada à reversão de uma provisão legal referente a um processo em que a possibilidade de perda agora é possível e não mais provável (impacto de R$ 99,6 milhões).

Dividendos

A forte e sólida geração de fluxo de caixa livre da empresa também proporciona boas oportunidades em termos de dividendos.

A B3 anunciou pagamentos em março referentes ao exercício de 2020 e deve continuar com essa política dado o forte momento operacional. Neste ano, inclusive, ela pagará dividendos extraordinários.

Outros eventos corporativos

No mesmo dia da divulgação dos resultados, a B3 apresentou a aprovação pelo Conselho de Administração de alguns eventos corporativos:

Esses movimentos e mudanças societários podem sinalizar a confiança do board no valor da companhia, além de ser significativo em impacto (aproximadamente 2% das ações) e ir ao encontro do movimento de pessoas físicas na Bolsa ao desdobrar as ações, o que facilita a compra pelos investidores.

Análise comparativa

A B3 negocia hoje com P/L acima de 20x, o que certamente foi influenciado pelos movimentos estratégicos da empresa realizados no passado (as fusões da BM&F com Bovespa e posteriormente com a Cetip) e consolidou sua posição como participante diversificada no mercado de capitais brasileiro.

Além disso, a CME (Bolsa de Chicago) tinha uma participação acionária na BM&FBovespa, posição que foi desfeita após a fusão com a Cetip. A BM&FBovespa também tinha uma participação na CME, fatia que foi vendida para fazer liquidez no âmbito da compra da Cetip. Essas operações simplificaram o fluxo de receita da B3 e destravaram valor da empresa.

As perspectivas altamente promissoras para ações em um cenário de taxas de juros mais baixas tornam os múltiplos atuais como apenas o novo normal para a empresa.

Fontes: B3 e Spiti

Recomendação

Estamos muito positivos em relação à tese de investimentos da B3, dado que temos perspectivas de que o número de novos investidores continue aumentando, o volume médio diário negociado se mantenha alto e acelerado tanto no mercado de ações à vista quanto no mercado futuro.

A demanda por ações e o número de empresas que abrem o capital devem continuar impulsionando os ADTVs (volumes médios diários de negócios), como vimos em janeiro e fevereiro deste ano.

Após atualizar o modelo de precificação com os números de 2020 e as perspectivas da empresa, no qual utilizamos o método de Fluxo de Caixa Descontado (Discounted Cash Flow ou DCF), chegamos ao preço-alvo de R$ 71 para B3SA3.

Mensagem final

A nossa tese de investimentos em B3 está baseada principalmente em três fatores estruturais.

O primeiro deles é a taxa básica de juros (taxa Selic) em patamares historicamente baixos. Isso significa dizer que, em geral, os investimentos que são atrelados a essa taxa – os investimentos de renda fixa – deixaram de ser tão atrativos para o investidor ou a investidora quando o assunto é rentabilidade.

Como não podia ser diferente, também no mesmo momento em que a taxa Selic se confirmou em uma tendência de queda (a partir de 2016), os investidores de maneira geral, buscando alternativas que rentabilizassem melhor os seus investimentos começaram a migrar para a Bolsa de Valores.

E, segundo declarações do nosso Banco Central (na última ata da reunião do Copom), mesmo com os aumentos previstos para a Selic, a intenção é manter a taxa em patamares que ainda sustentem a economia em níveis “estimulativos”.

Outro fator de extrema importância foi o maior acesso à educação financeira de qualidade a preços acessíveis que os avanços tecnológicos, a internet e as novas tendências de hábitos de consumo proporcionaram. E essa tendência dificilmente será revertida no momento em que retornarmos à situação de “normalidade” em relação à pandemia.

E, para finalizar, o aumento de novos produtos financeiros oferecidos, como a maior oferta e disponibilização dos BDRs, novos ETFs (Exchanged Traded Funds ou fundos de índices) e de novas empresas entrantes com IPOs, fortalece, melhora e aumenta as possibilidades de diversificação de investidores pessoas físicas no mercado.

Antes de me despedir, muito prazer!

Meu nome é Aline Tavares, sou analista CNPI e responsável pela área de análise de ações da Spiti.

Nasci em Niterói e sou economista formada pela Universidade Federal Fluminense. Depois da faculdade, cursei um MBA em Finanças no IBMEC-RJ e outro em Gestão de Investimentos na PUC-Rio.

No ano passado, topei o desafio de integrar uma equipe extremamente qualificada e com um propósito muito nobre: o de batalhar para que qualquer pessoa possa investir melhor.

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Um abraço,

Aline Tavares

<strong>Aline Tavares</strong>
Aline Tavares

é responsável pela área de análise de ações da Spiti. Foi analista e coordenadora de investimentos do fundo de pensão da Infraero por seis anos. Atuou também em análise de investimentos e relacionamento com clientes na corretora Ágora. É economista pela Universidade Federal Fluminense, cursou o MBA em Finanças do IBMEC e o MBA em Gestão de Investimentos da PUC-Rio.


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